"É
PRECISO TER A CORAGEM DE MUDAR, DE FAZER DIFERENTE (...) O BRASIL TEM
JEITO..." - VEJA ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE EDUARDO CAMPOS ONTEM (12) NO
JORNAL NACIONAL
O Jornal
Nacional dá sequência, hoje, à série de entrevistas com os principais
candidatos à Presidência, em que nós abordamos questões polêmicas das
candidaturas e o desempenho deles em cargos públicos. Lembrando que o
Bom Dia Brasil e o Jornal da Globo também receberão os candidatos nas
próximas semanas. O tempo total da entrevista de hoje é de 15 minutos,
dos quais nós reservamos o último minuto e meio para que o candidato
fale resumidamente sobre os projetos que ele considera prioritários se
for eleito.
O sorteio acompanhado por assessores dos partidos determinou para a hoje a presença do candidato do PSB, Eduardo Campos.
Patrícia Poeta: Boa noite, candidato.
Eduardo Campos: Boa noite, Patrícia. Boa noite, Bonner. Boa noite a todos que estão nos assistindo.
Patrícia
Poeta: Então o tempo começa a ser contado a partir de agora. Candidato,
vamos começar a entrevista com a lista de alguma promessas que o senhor
já fez, eu anotei algumas delas: escola em tempo integral, passe livre
para estudantes do ensino público, aumento dos investimentos em saúde
para 10% das receitas da União, manutenção do poder de compra do salário
mínimo e multiplicar por 10 o orçamento da segurança. Tudo isso
significa aumento dos gastos públicos. Mas o senhor também promete
baixar a inflação atual para 4% em 2016, chegando até 3% até 2019. E
isso, segundo economistas, exige cortar pesadamente gastos públicos. Ou
seja, essas promessas se chocam, se batem. Qual delas o senhor não vai
cumprir?
Eduardo Campos:
Patrícia, na verdade, só há uma promessa, que é melhorar a vida do povo
brasileiro. A sociedade brasileira tem apresentado na internet, nas
ruas, uma nova pauta, que é a pauta da educação, da melhoria da
assistência da saúde, que está um horror no país, a violência que cresce
nos quatro cantos do país. Nós temos que dar conta de melhorar a
qualidade de vida nas cidades onde a mobilidade também é um grave
problema. E tudo isso em quatro anos. Nós estamos fazendo um programa
de governo, ouvindo técnicos, a universidade, gente que já participou de
governo. E é possível, sim. Nós estamos fazendo conta, tem orçamento.
Eu imagino que muitas vezes as pessoas dizem assim: ‘Houve uma reunião
do Copom hoje e aumentou 0,5% os juros’. E ninguém pergunta da onde vem
esse dinheiro. E 0,5% na Taxa Selic significa 14 bi. O passe livre, que é
um compromisso nosso com os estudantes, custa menos do que isso. Então,
nós estamos fazendo contas para, com planejamento, em quatro anos
trazer inflação para o centro da meta, fazer o Brasil voltar a crescer,
que esse é outro grave problema, o Brasil parou. E o crescimento também
vai abrir espaço fiscal. Tudo isso com responsabilidade na condução
macroeconômica. Banco Central com independência, Conselho Nacional de
Responsabilidade Fiscal, gente séria e competente governando. Fazendo a
união dos competentes, dos bons, o Brasil pode ir muito mais longe.
Patrícia Poeta:
Agora, candidato, o senhor então está querendo dizer que pretende
deixar de gastar aqui, para gastar ali. Mas isso não significa,
necessariamente, cortes pesados. Não são cortes. Então, os economistas
dizem que para combater a inflação seria necessário isso: cortes severos
mesmo. Como é que o senhor pretende fazer isso?
Eduardo Campos:
Olha, a inflação não pode ser combatida só com a taxa de juros, como
vem sendo feita no país. É preciso ter coordenação entre a política
macroeconômica monetária, a política fiscal, mas é preciso também ter
regras seguras. As regras que mudam a todo dia no Brasil muitas vezes
fazem com que o preço do dinheiro suba, o chamado Custo Brasil. A falta
de logística que encarece o produto que vem do mundo rural, da própria
indústria, a falta de ferrovia, de rodovia, que o Jornal Nacional mostra
tantas vezes aqui, de portos, encarece o país. Então, o Brasil precisa
enfrentar a inflação, porque ela está corroendo o salário. As pessoas
estão percebendo, quem está nos assistindo tem percebido que o salário
não dá para o mês inteiro. Os aposentados, os assalariados, os que vivem
por conta própria do seu esforço percebem. O compromisso um com o
centro da meta da inflação e a retomada do crescimento.
Patrícia Poeta:
Então, o senhor não acha que seria justo dizer para o eleitor que o
próximo ano será um ano difícil, duro, com remédios mais amargos?
Eduardo Campos: É, o
ano difícil está sendo já esse, Patrícia. Porque a gente vai ter um
crescimento de -1%. O Brasil está perdendo...
Patrícia Poeta: Sem aumento da tarifa.
Eduardo
Campos: É, o Brasil perdeu de 7 a 1 dentro do campo de futebol, na
Copa, e está perdendo também de 7 a 1 fora do campo. Porque é sete de
inflação, com a presidenta guardando na gaveta dela, para depois da
eleição o aumento da energia e o aumento do combustível, mesmo assim,
com menos de um de crescimento.
Patrícia Poeta: Mas vai ser um ano difícil, o próximo ano, candidato?
Eduardo
Campos: Eu acho que vai ser um ano que nós vamos terminar melhor do que
o ano de 2014. Porque nós vamos enfrentar os problemas. A pior coisa na
vida de uma pessoa, de uma família e de um governo é a gente ficar
escondendo os problemas e não tendo coragem e humildade de dizer: ‘Ó,
estamos com problemas. Vamos resolver o problema?’. Nós estamos com um
problema, por exemplo, na questão da energia. Não seria muito melhor
dizer: ‘Ó, choveu menos do que deveria, não investimos tanto’. Por que a
gente não criar todo um esforço de eficiência energética, como a Europa
está fazendo? Premiar quem faz as mesmas coisas, seja na indústria, no
comércio, em casa, com menos energia.
William Bonner: Vamos mudar de assunto. O senhor se
articulou com o ex-presidente Lula e com partidos políticos para eleger a
sua mãe, a então deputada federal Ana Arraes, ministra do Tribunal de
Contas da União. O senhor considera isso ético? Não foi uma forma de
nepotismo?
Eduardo Campos:
Veja, Bonner, se a nomeação fosse minha, se dependesse da minha
nomeação enquanto governador, seria nepotismo, e eu quero te dizer que
eu fui o primeiro governador a fazer a lei do nepotismo no estado de
Pernambuco. Ela, Ana, era funcionária pública de carreira por concurso
da Justiça, elegeu-se deputada por duas vezes, com votações crescentes,
fez mandatos respeitáveis. A Câmara foi chamada a eleger um parlamentar
para uma vaga no Tribunal de Contas, ela se candidatou, outros deputados
se candidataram, como o ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo. Ela
disputou uma eleição com vários deputados, ela foi a única mulher que
ganhou no voto, com a votação muito grande, e foi ser ministra e tem
feito um trabalho como ministra do Tribunal de Contas que todos
reconhecem como trabalho digno, sério.
William Bonner:
Certo, mas o que eu estou colocando em questão não são os méritos da
sua mãe, não se trata disso, a questão é: o senhor ter usado o seu
prestígio, o seu poder para se empenhar pessoalmente num trabalho de
catequese, numa campanha para que um parente seu ocupasse um cargo
público e vitalício. O senhor acha que isso foi um bom exemplo para o
país?
Eduardo Campos:
Olha, na hora que ela saiu candidata com apoio do meu partido, se fosse
uma outra pessoa, eu teria apoiado. Por que eu não apoiaria ela que
tinha todos os predicados, tanto é que pode registrar a sua candidatura,
pode fazer a disputa. Eu nem votei, Bonner, porque eu não era deputado.
Eu, simplesmente, torci na hora em que ela se candidatou para que ela
ganhasse e ela tem feito um trabalho no Tribunal de Contas que tem o
reconhecimento, inclusive, do corpo técnico do Tribunal.
William Bonner: O seu empenho pessoal, o senhor não vê nada de errado no seu empenho pessoal nesta eleição?
Eduardo Campos: Não.
William Bonner: Ok.
Patrícia
Poeta: Ainda nesse ponto, candidato, o senhor indicou um primo seu e um
primo da sua mulher para trabalhar no TCE, que é o órgão responsável
por fiscalizar as contas do estado, quando o senhor era governador de
Pernambuco. Como é que fica a isenção nisso?
Eduardo Campos:
Na verdade, eles se candidataram na Assembleia Legislativa em vagas que
eram próprias da Assembleia Legislativa. Um deles e um outro foi
indicado, como ele foi desembargador eleitoral, tinha todos os
predicados jurídicos para fazer exatamente esse pleito e foi votado pela
Assembleia Legislativa.
Patrícia Poeta: Mas foram indicados pelo senhor?
Eduardo Campos: Não. O Marcos Loreto...
Patrícia Poeta: Para julgar suas contas.
Eduardo
Campos: Não, para julgar minhas contas, não. Eles foram indicados para
vaga no Tribunal de Contas. Um pela Assembleia Legislativa, não há
nenhuma indicação, a vaga era da Assembleia, pessoas podiam se
candidatar e ele não estava impedido por lei de se candidatar. E, um
outro, que foi indicado na vaga do Executivo respeitando a legislação em
vigor.
Patrícia Poeta:
Então, o senhor, não vê conflito nisso. Se o senhor fosse eleito
presidente hoje, o senhor manteria esse comportamento no governo
federal, sem dúvidas?
Eduardo Campos:
Não, eu acho que a gente precisa, na verdade, sobretudo agora que vamos
ter cinco vagas no Supremo Tribunal Federal, o Brasil precisa fazer uma
espécie de comitê de busca, o que é feito para os institutos de
pesquisa, juntar notórias, pessoas com notória especialidade e
conhecimento para fazer ao lado do presidente a seleção de pessoas que
vão para esses lugares vitalícios. Aliás, eu acho que o Brasil deve
fazer uma reforma constitucional para acabar com esses cargos vitalícios
que ainda existem na Justiça, é preciso ter os mandatos também no Poder
Judiciário, coisa que existe em outras nações do mundo, de maneira a
oxigenar os tribunais e garantir que esse processo de escolha seja um
processo mais impessoal.
William Bonner:
Candidato, o senhor tem procurado apresentar o discurso de um gestor
moderno, de um gestor favorável ao empreendedorismo privado, mas o fato é
que, logo depois do anúncio da sua aliança com Marina Silva, Marina fez
restrições ao agronegócio, que é um setor que tem sustentado a economia
brasileira em muitos anos. Como é que o senhor pretende resolver esta
contradição dentro da sua chapa?
Eduardo Campos:
Olha, com diálogo, Bonner. Mostrando exatamente que Marina não tem nada
contra agronegócio ou contra indústria ou contra o desenvolvimento
econômico. O que Marina defende e eu defendo também, e a sociedade
brasileira quer ver hoje, é que nós temos que ter desenvolvimento com
respeito ao meio ambiente e com inclusão. Esse é um conceito que no
século passado parecia que disputava: ou se tem desenvolvimento ou se
tem respeito à natureza. E, hoje, o mundo todo bota numa equação só,
tenta efetivamente conciliar desenvolvimento com proteção da natureza e
com inclusão das pessoas mais pobres.
William Bonner:
Claro, candidato. Mas eu acho que eu preciso ser um pouco mais
específico sobre a contradição a que eu me referi. Vamos falar da
reforma, da votação do Código Florestal. Assunto importantíssimo. Na
votação do Código Florestal, o seu partido aprovou, quase que por
unanimidade. E o grupo político de Marina Silva teve uma posição
rigorosamente oposta. Marina chegou a dizer que o Código Florestal
representava um retrocesso de 20 anos. A questão é: como é que o eleitor
pode se convencer da coesão da sua chapa, se os dois candidatos têm
visões tão opostas, tão antagônicas em relação a esse assunto?
Eduardo Campos:
Absolutamente. Nós temos uma visão, uma aliança, que não é feita em
cima da minha opinião, da opinião de Marina. Em cima de um programa, de
um programa que tem a participação da academia brasileira, de diversos
estudiosos, cientistas, militantes do movimento social, que têm nos
ajudado a construir um programa, que vai ser lançado nos próximos dias,
exatamente para não ter uma coisa de uma aliança pessoal, uma aliança de
personalidades, mas uma aliança de pensamentos.
William Bonner:
Mas eu apresentei um caso concreto, em que houve posições bem
diferentes. Um dos dois lados cedeu em relação a esse assunto para
chegar a um consenso?
Eduardo Campos:
Neste caso, em particular, eu defendi as posições de Marina. Na nossa
bancada, ela rachou, na verdade. Teve muita gente que era ligado a
estados onde o agronegócio tinha mais expressão que não votou com a
orientação partidária, mas eu defendi a posição que foi representada por
Marina.
William Bonner: Só dois votos do seu partido foram contrários.
Eduardo Campos: Exatamente. E eu me coloquei solidário à posição dela.
Patrícia Poeta:
Ainda sobre coerência. O senhor e o seu partido foram colaboradores
próximos do então presidente Lula. O senhor, inclusive, foi ministro em
2005 do governo dele, exatamente quando o escândalo do Mensalão veio a
público e o senhor não deixou o cargo. O senhor só se afastou do governo
Dilma quase três anos de um mandato de quatro. Foi no fim do ano
passado. O que que o senhor diria aos críticos que afirmam que o senhor
abandonou todos esses anos de colaboração a Lula e Dilma pela ambição de
ser presidente da República?
Eduardo Campos:
Não se trata de ambição. Se trata de um direito, numa democracia
qualquer partido pode lançar um candidato, pode divergir. Porque você
apoiou, você não está condenado a apoiar quando você já não acredita,
quando você já não vê, não se representa naquele governo.
Patrícia Poeta:
Mas o senhor levou quase três anos de um mandato de quatro para sair do
governo, para deixar de apoiá-lo, não é tempo demais?
Eduardo Campos: Se você for ver, isso
aconteceu antes. Já em 2012, nas eleições de 2012, nós já enfrentamos o
PT em várias cidades, inclusive no Recife. Quando a presidenta apoiou o
Renan e o PMDB para Câmara, Renan para o Senado, o PSB já apoiou outros
candidatos. Nós já vínhamos num processo de afastamento claro do
governo. Por quê? Porque esse governo é o único governo que vai entregar
o Brasil pior do que recebeu. Nós vamos estar pior na economia, pior na
questão da violência, pior na logística, pior na relação externa com o
resto do mundo. Ou seja, e aí nós estamos oferecendo um caminho para que
o Brasil volte a crescer.
Patrícia Poeta: Mas o senhor apoiou durante mais de 10 anos esse governo. O que que aconteceu neste meio do caminho?
Eduardo Campos: O que aconteceu é que aquilo que foi
prometido, que o Brasil ia corrigir os erros e aprofundar as mudanças,
não aconteceu. Tantas pessoas que votaram na Dilma e se frustraram,
tantas pessoas que estão nos assistindo que viram agora um governo que
valoriza no seu centro a velha política, um governo que deixou a
inflação voltar, um governo que está fazendo derreter os empregos.
Agora, o que o povo quer é alguém que dê solução a isso. E eu e Marina
entendemos que para dar solução a isso é fundamental um novo caminho.
Porque PSDB e PT há vinte anos governam o país. Se a gente quer chegar a
um novo lugar, a gente não pode ir pelos mesmos caminhos.
William Bonner:
Candidato, chegou aquele momento em que o senhor agora se dirige ao
eleitor para expor aqueles projetos que o senhor consideraria
prioritários caso eleito.
Eduardo Campos:
Eu queria ter a oportunidade de falar com você de todo Brasil. Eu
governei o estado de Pernambuco por duas vezes. Fui reeleito com 83% dos
votos e deixei o governo com mais de 90% de aprovação. Governei com
pouco, porque governei um estado do Nordeste brasileiro com muita
pobreza, e botei o foco naqueles que mais precisam. Então, aprendi a
fazer mais com menos. Agora, ao lado da Marina Silva, eu quero
representar a sua indignação, o seu sonho, o seu desejo de ter um Brasil
melhor. Não vamos desistir do Brasil. É aqui onde nós vamos criar
nossos filhos, é aqui onde nós temos que criar uma sociedade mais justa.
Para isso, é preciso ter a coragem de mudar, de fazer diferente, de
reunir uma agenda. É essa agenda que nos reúne, a agenda da escola em
tempo integral para todos os brasileiros, a agenda do passe livre, a
agenda de mais recursos para a saúde, a agenda do enfrentamento do
crack, da violência...
Patricia Poeta: Ok.
Eduardo Campos: O Brasil tem jeito. Vamos juntos. Eu peço teu voto.
Patricia Poeta:
Acabou o tempo, candidato. Obrigada pela sua participação. Amanhã, a
entrevista será com a candidata do PT à reeleição, Dilma Rousseff.

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