Mestre João Carlos Dias Nazareth: 100 anos, “Sua benção, Mestre”

“Verba volant, scripta manent.
Tanto nomini nullum par elogium.”

Salve mestre, sua benção, João Carlos Dias Nazareth: 100 anos
“Crepúsculo da década de 1960 e início dos anos 1970, mágicos anos aqueles com mestre João Carlos Nazareth, respirávamos música, vivíamos sob o espírito da música”.

Parece que a Banda Musical da ETFM – Escola Técnica Federal do Maranhão - flutuava ladeira acima, ladeira abaixo, ao som de Alegria, Alegria: um verdadeiro êxtase de música na avenida dos franceses naquele final de tarde de setembro de 1970. O bumbo de Diniz havia sutilmente cortado a execução da Banda Marcial, após a eternidade e o silêncio majestoso de poucos segundos, o rufado de semifusas sem igual do tarol de Cutrim , o surdo de Rudela, o prato de Dentinho e a Banda com garra e afinada despejava os primeiros acordes na avenida. Tudo obra daquele maestro, regente e professor que caminhava imponente ao nosso lado, o inesquecível João Carlos Nazareth. Nós o lembraremos sempre como compositor, arranjador, nosso professor e amante da boa música, sobretudo com muita veneração, alegria e, hoje, com saudades – nós que fomos alunos e portamos no espírito sua enorme influência na formação – tanto musical como de cidadãos. Celebremos, neste mês, o centenário de João Carlos Dias Nazareth. 

Há exatos cem anos, ele nascia (10-abril–1911), na fazenda Aliança em Cururupu, como ele bem disse nas suas memórias “quando cheguei a entender as coisas, já morávamos em Porto das Pedras, sítio de meu avô materno, situado à margem direita do rio Cururupu”. A vida desse magnífico trompetista, regente, compositor, letrista, arranjador e professor de teoria musical, de história da música e de instrumentação de muitas gerações de alunos da Escola Técnica Federal do Maranhão, atual: IFMA e de muitos outros adolescentes de São Luís e de outras cidades da Baixada maranhense, não foi um mar de rosas, dois incêndios consumiram sua residência na infância, ele conta “...uma grande labareda na tacaniça...devorava toda a casa cuja construção era de palha (pindova) e em poucos minutos nada restava apenas cinzas e lágrimas nos meus olhos” . O mestre João Carlos conta também que bem cedo se tornou arrimo de família: “Ao cortar um galho de jamari, o facão atingiu o pé do meu pai, Sr.Anastácio Dias Nazareth, infeccionou, provavelmente era tétano e, desde 25-fev.-1923, quando ia completar 12 anos, perdi o sabor dos brinquedos de criança, trocando-os pela responsabilidade de chefe de família”. 

Conheci o maestro João Carlos na ETFM, quase completando um ano de iniciação de estudos musicais – introdução e solfejo em música – por quase duas décadas, o mestre João Carlos transformaria aproximadamente mil meninos e meninas, entre os 12 a 15 anos, em músicos talentosos, muitos até mesmo em virtuoses em clarinete, trompete, saxofone soprano, tenor, alto, bombardino, trompa, clarone, contra-baixos, flautas, requinta, barítono , trombone, prato, tarol, surdo e bumbo. 

Era um menino de 12 anos, quando fui apresentado ao mestre naquele crepúsculo do histórico ano de 1968. Num entardecer de novembro, o inesquecível mestre Raimundo Nonato Araújo, nosso paciente e incansável professor e à época famoso líder do Nonato e seu Conjunto, digno ressaltar que nenhum adjetivo alcança professor Nonato pois ele obteve êxito ensinando solfejo a um gago (“eu mesmo”), ministrava na Escola Técnica a disciplina optativa de Introdução à Teoria Musical e Solfejo e entregou-me a João Carlos, assim: “Mestre o garoto Cherrin já pode iniciar os estudos com um instrumento”. Assim ocorria com todos os garotos que naquele 1º ano do extinto Ginásio Industrial da ETFM haviam optado pelos estudos de música. Após um ano, éramos direcionados para a batuta de João Carlos. Ainda lembro o momento, sua figura altaneira de voz forte adentra a Sala da Banda Musical, pega um clarinete e me põe às mãos, “serás um clarinetista”, mas logo muda de opinião: “Cherrin, tu não tens cara de clarinetista e Ribeirinho está concluindo o Técnico é melhor que aprendas a tocar o saxofone soprano em Sib. Passa na casa dele e pega o instrumento que está com ele”. Aquela bata branca e calça de linho preta, batuta de ébano à mão, estatura atarracada, cigarro no canto do lábio, voz firme, tonitruante, imperativa e personalidade com forte liderança seria meu/nosso mestre de instrumentação e história da música, regente da Banda Musical e conselheiro da vida por sete anos. 

Os aprendizes sopravam suas lições no instrumento diretamente para ele, sob a marcação da sua batuta dando o ritmo e o compasso, batendo à mesa, soprávamos as setenta primeiras lições do Método Paschoal Bona para podermos ascender ao status de músicos da Banda Musical e “jamais seríamos tocadores” ele sentenciava. Quando errávamos, ele solfejava todas as notas, uma a uma, duas vezes com rigor a estrutura do exercício musical. Mas sua paciência não era infinita, mas bem finita: “Vá estudar seu moleque” e batia com a batuta na quina da mesa naquelas quentes tardes ludovicences. E, assim, Pinheiro, Dino Carvalho, Rubinho, Afonso Celso, Leal, Antônio Carlos, “Jumentinho”, Cândido, Cesário, “Pipão”, Edivaldo, Bezerra, Manoel Domingos, seus filhos Jofre e “Paizinho”, eu, e tantos outros, o vimos ensinar e transformar dezenas e dezenas de adolescentes em excelentes músicos.
João Carlos era um oficial-maestro reformado como 1º Tenente da Polícia Militar Maranhense quando assumiu, a convite do vice-diretor Nilo Carvalho, a Banda da ETFM em agosto/1966. Além de música, recebíamos dele forte formação disciplinar. A Banda Musical, sob a sua regência, era uma unidade de elite da Escola Técnica. Eram três ensaios musicais semanais, mais ensaios voltados à performance de desfiles, cadência, disciplina de comandos e postura com os instrumentos de uma Banda de Música em moldes militares. Não à toa, sob a sua batuta, a Banda da ETFM ficou em 2º lugar no Concurso de Bandas das Escolas Técnicas Federais do Brasil em 1969, realizada na cidade do Rio de Janeiro. 

João Carlos compôs músicas muito belas: o alegre e erótico samba Etelvina, Minha Nega; o belíssimo Cajueiro Velho é obra-prima; a terna marcha solene Assunção, composição em homenagem à sua mãe Assunção Farias Nazareth; o dobrado Dr. Newton Bello e o singelo Recordando; o Hino à Bandeira Maranhense com letra do poeta Ribamar Pereira e não esqueçamos O Hino da Polícia Militar do Maranhão. Toadas, sambas-enredo e dezenas de bonitos arranjos para Banda & Orquestra da ETFM. Destaco Alegria, Alegria do Caetano Veloso, País Tropical e Que Maravilha, do Jorge Bem/Toquinho, as marchas nacionalistas de Miguel Gustavo. Está escrito nas Memórias de mestre João Carlos “ao Mestre Álvaro Malhão Costa, regente da Banda da Polícia Militar devo a prática de escrever orquestração para Banda. Bom mestre o “Neném Costa de Codó”. 

A Banda da ETFM tocava em grandes solenidades em São Luís, em muitas festas populares, em Igrejas, em teatros...íamos amiúde em apresentações das inaugurações públicas, recepções de autoridades nacionais e internacionais ou celebrações cívicas em diversas cidades do interior maranhense: Caxias, Pedreiras, Arari, Imperatriz, Bacabal e São José de Ribamar. 

João Carlos, como regente, primava pelo ecletismo musical desde bonitos dobrados militares, marchas, valsas clássicas e populares, MPB, sinfonias e raridades hoje pouco executadas como O Canto do Pajé de Villa-Lobos e obras de Carlos Gomes como O Guarany. Era exigente com a afinação, qualidade de execução, com a acurácia da escrita das partituras e possuía dinamismo contagiante na regência interagindo com os músicos, animando-os e por vezes admoestando-os: “Não Dentinho, não faças isso, rapaz. Carlos Gomes não escreveu isso”. Nossos ensaios nas manhãs de sábado eram animados. Por vezes, dizia às moças que assistiam a execução dos ensaios: “Não fiquem aí na porta, às vezes não me controlo, minhas filhas”. Certa vez num Festejo de São Cosme e Damião, o trompetista, inclusive seu filho de codinome, Piriquito, fez um floreado de semicolcheias que não constavam na partitura da Novena Queremos Deus e levou um sermão público em alto e bom som: respeito ao sagrado e sobretudo respeito à música era aquele o estilo do maestro. Tratava todos os alunos – independente de credo, de cor, de status financeiro – como filhos. Ensinava-nos boa música, cobrava boas execuções, disciplina e pontualidade e, acreditem, chamava àquela centena de alunos pelo nome completo aonde os encontrasse. Certa noite em férias em São Luis, fui visitá- lo lá na sua casa na Rua do Norte e, ao apresentar minha namorada Laury, lembrou o nome na ponta da língua do irmão dela que havia sido também seu aluno, “menina, o nome do teu irmão é Carlos Alberto Campos Almeida”, uma memória privilegiada aos 67 anos que esbanja no seu livro autobiográfico: Memórias. Naquela noite, presenteou-me sua autobiografia escrita em 1977. 

O Professor João Carlos Nazareth nos dá uma lição de Sísifo nestas quarenta e nove páginas de Memórias: o esforço sem esmorecimento dá sentido literal à sua vida, pois as provações foram, desde a perda do pai, inumeráveis. Mas não há ressentimentos. A música é o seu linimento, a sua arte e o seu pão desde a adolescência. Para estudar música aos domingos em Cururupu com o professor José Alípio de Morais tinha de andar o percurso duma maratona naquelas alvoradas. Acordava às 5 horas em Aliança para estar 8h30 em Cururupu e retornar para enfrentar o trabalho na lavoura ou na Usina de Açúcar. É digno evocar que Johann Sebastian Bach andava vinte quilômetros para estudar música. Os relatos de João Carlos têm a brisa do mar, são bucólicos, poéticos , sofridos, engraçados e suas histórias se assemelham à literatura fantástica latino-americana, mas bem reais. No salvamento do barco na enchente da maré alta em Tucundiua, onde ainda menino quase perde a vida, fica a imagem da bravura de Mundiquinha de Nhá-Ana completamente despida puxando cabos para salvar o barco. Ao narrar o dia em que conheceu um dos seus melhores amigos, o Benedito de Herculana ou Benedito Gomes, ele nos diz: “Eu tinha 14 a 15 anos. Estava trabalhando no moinho de triturar açúcar quando ele chegou com um cofinho pendurado num cacete e ele disse: „Rapaz! É por isso que as mulheres são doidas pelos homens da Aliança. Vocês só vivem açucarados.. Tirei um pouco daquele pó de açúcar e passei de leve no rosto dele, dizendo. Vem sempre aqui que te faço açucarado como nós daqui” e rolaram de rir. Começando, assim, a grande amizade. A odisseia de 40 km para buscar camarão, sozinho com menos de 14 anos, na praia de Tapiranga é de uma solidão num mundo de chuvas tropicais e, dorme numa casa, em Brejo de Vicente Machado que madrugada a dentro é invadida “por dois cavalos que acossados pela chuva e pelas muriçocas, derrubam a porta de meaçaba e invadiram a sala onde dormia”...O retorno até Retiro de Santana faz-nos lembrar passagens de Cem Anos de Solidão. Trabalhou na lavoura, foi ferreiro, foi leiteiro em São Luís mas era a música a vocação, o farol. “Um dia resolvi não ir mais à Oficina de Ferreiro em Retiro de Santana e disse a minha mãe que queria aprender música”. Ao solicitar ao patrão que comprasse um piston em São Luis que pagaria com o seu trabalho na Usina. O patrão respondeu: não é preciso, João Carlos, “mandar em São Luis já os tenho aqui. Foice, enxada, facão de mato e etc.” Para um outro espírito estas palavras poderiam ser motivo da derrota para mim, serviram para intensificar minha luta.” Com um emprego em São Luís de entregador de leite consegue apurar 100.000 réis, João Carlos sentencia: “ Comprei um piston de segunda mão e retornei para Aliança”. Monta o primeiro Conjunto em Aliança, “Éramos cinco, um piston, clarineta, bombardino, tarol e maracá. Todos os domingos já trazia 10.000 réis para minha mãe.” Entrou na Polícia Militar em março de 1935 como aprendiz em música e sempre por meio de concursos chegou em 10 anos a 10 Sargento. Foi designado pelo governador Eugênio de Barros a reorganizar a Banda Lira Operária de Caxias. Em 1960, chega ao posto de subtenente na vaga de contra-mestre e neste mesmo dia sua mãe Dona Assunção morre no RJ aos 77 anos. Ele, João Carlos, nos diz: “Minha mãe, a heroína de todas as lutas que travamos para sobreviver a morte de meu pai”. 

O mestre João Carlos casou com Dona Felipa, e nos diz “cabocla braba” a conheci em 1938 em São Vicente Ferrer e como uma declaração perene de amor e respeito à esposa escreve “Se me mandarem casar de novo eu caso com Dona Felipa”. Desta união nasceram 11 filhos: Ubiratan, Wilson, José Ribamar, Alcione, Ivone, João Carlos Filho, Jofre, Maria Helena, Solange, além de Sônia e Ubirajara que morreram ainda pequenos. Músicos talentosos seus filhos e, uma primeira dama da MPB: a cantora Alcione Nazareth. 

Para educar tantos filhos, ele destaca o trabalho incansável de Dona Felipa e a criação da sua Orquestra JAZZ GUARANY que tocou por 20 anos e cita “os grandes bailes do Anil de Pedro Veiga e do Lítero dos quais, muitas vezes retornava a pé.” “Criei todos vocês com o bico” enfatizava bem conciso aos filhos. 

O mestre tinha belas frases: “Aqui nesta banda ninguém é imprescindível” para quem chegava atrasado aos ensaios. “Tudo é belo, perfeito quando a Banda está completa. É como o cais da Sagração na maré cheia” e olhava para os aprendizes. Nós os aprendizes, sabíamos: “ Nós éramos a maré vazante”. 

Mas, finalmente, passaram-se sete anos e em dezembro de 1974, estava concluindo minha graduação em Eletromecânica, faria na VWB-SBC/SP estágio, e impossível não lembrar com nostalgia aquele último ensaio na Banda, mestre João Carlos convidou-me para acompanhá-lo: Disse-me: “Cherrin, pega o sax-soprano e vamos dar uma volta”. Chamou um táxi e fomos a um Centro de Tradições Afro-Maranhenses ali no Belira. Sempre, o Mestre era recebido com muito respeito e veneração pelas pessoas que mostravam muito carinho pela sua presença. No local, lembro bem, numa vitrola, estava tocando, o samba de Pixinguinha e interpretado pelo Martinho da Villa, Patrão prenda seu gado. Entramos numa sala do Centro, havia muito incenso, defumadores, haviam flores e havia um santo. Ele solicitou, gentilmente, a que eu tocasse no sax-soprano uma melodia ao Santo da Casa. Enquanto, eu tocava Menino da Gaita do Sérgio Reis sob o manto da fumaça dos incensos, escutei o mestre João Carlos, com a voz embargada, mas forte, emocionado, como um pai que se despede de um filho dizer para a senhora que evolava o incensório: “Benza meu aluno, peça proteção a ele”. Após a cerimônia, comemoramos com uma cerveja a despedida, chamou novamente um táxi e deixou-me em casa ali no Anil na Av. São Sebastião 16A. E, eu, após mais de 40 anos, jamais o esqueci. Que o Maranhão e o Brasil, jamais o esqueçam, que celebrem o nascimento desse filho ilustre que tanto fez pela música, pela cultura, pelo ensino e divulgação do nosso folclore. Que suas músicas sejam sempre lembradas, tocadas, estudadas e regravadas: Salve maranhenses, o centenário do grande Mestre João Carlos Dias Nazareth.

José de Jesus Cherrin Fernandes
Licenciado em Física pela USP
Técnico em Eletromecânica pela ETFM

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